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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O PECADO DE DAVI E SUAS CONSEQUÊNCIAS

César Moisés Carvalho


Introdução

Qualquer estudioso da literatura antiga sabe que os reis possuíam seus historiadores ou cronistas particulares, que registravam as guerras e os demais fatos relacionados aos seus soberanos distorcendo a realidade, fazendo “recortes históricos”, ou seja, omitindo tudo aquilo que depusesse contra o reino. Alguém poderia questionar: “E a Bíblia, sendo ela um livro que possui textos daquele período, também não se enquadra nessa categoria de literatura planfetista?” É possível que ocorra o pensamento de que a única segurança que se tem, no caso da Bíblia, é a inspiração, que garante a inerrância e, consequentemente, a sua infalibilidade. Isso por si só bastaria, porém, é preciso reconhecer a verdade de que as pessoas estranhas à fé cristã não respeitam a Palavra de Deus e não a veem como tal. Mas o que faz com que muitas delas acabem reconhecendo que a Bíblia é também um livro sui generis nesse aspecto? O próprio modo de ela apresentar as questões serve como o que se chama em teologia de “testemunho interno” de que é um livro singular e, realmente, a Palavra de Deus. As Escrituras Sagradas não omitem os erros e tragédias dos seus maiores personagens. Até mesmo autores críticos reconhecem essa verdade sendo este um dos principais entraves às suas acusações em relação aos relatos escriturísticos. Particularmente no caso de Davi, autores não-ortodoxos reconhecem a verdade de que ele surge “como um homem verdadeiro, autêntico, no qual podemos nos reconhecer, ao contrário de muitos outros ‘santos’ de vidas piedosas e irreais”.[i]




Como um livro, produzido na mesma época que muitos outros, não segue a mesma linha metodológica e não incide nos mesmos anacronismos ou interpolações propositais das obras com o mesmo cunho? Os autores Andrew E. Hill e J. H. Walton dissertam com propriedade sobre essa questão afirmando que as pesquisas “sugerem que a historiografia do Antigo Oriente Médio raramente queria apresentar a visão objetiva do que realmente aconteceu. Em geral, a propaganda era revestida de história com o fim de beneficiar os poderosos”.[ii] Isso torna difícil a credibilidade e a veracidade do conhecimento acerca das questões históricas que envolvem as civilizações primitivas e antigos impérios.

Inscrições reais geralmente eram documentos interesseiros mediante os quais o rei podia vangloriar de seus feitos, exagerando aspectos positivos, ignorando aspectos negativos e, ocasionalmente, orgulhando-se por realizações do antecessor. Quando o propósito é a auto-exaltação e as recompensas são poder e prestígio, a exatidão se torna insignificante. Assim, os documentos historiográficos do Antigo Oriente Médio devem ser interpretados com muito cuidado para reconstruir o relato preciso dos acontecimentos.[iii]

Mas, e no caso de Davi? Houve ou não campanha publicitária? Se houve, é bom saber que, além de ela ser “mal feita” — pois ressaltava mais os erros que os acertos de Davi —, serviria somente para a posteridade, visto que para as pessoas da época os fatos estavam muito claros e evidentes sendo, portanto, impossível convencê-las do contrário. Se o cronista não era testemunha ocular dos acontecimentos, é possível que tenha ouvido várias versões (algumas pró e outras contra Davi). Como ele decidiu, entre os relatos, qual delas usar? São questões que pesam no momento de considerar a história, porém, no caso do texto bíblico elas são extremamente propícias, dando ao estudioso ainda mais segurança e credibilidade acerca desse livro singular:

Embora a historiografia do Antigo Oriente Médio enfatize, em geral, o rei e seus feitos militares e nacionais, fica claro que as narrativas históricas de Israel são motivadas por interesses teológicos. O propósito desse tipo de literatura é mostrar a maneira pela qual o Senhor age na história para cumprir suas promessas e alcançar seus objetivos. Podemos classificá-la como didática (instrutiva) no sentido que é a revelação de quem Deus é pelo registro do que ele fez. Como a aliança declara a posição especial de Israel, essa ênfase poderia ser considerada de valor publicitário; mas o destaque contínuo ao fracasso e à infidelidade de Israel negam esse propósito para a literatura. Tanto a literatura didática quanto à publicitária são seletivas no que se refere ao registro de fatos e detalhes. A seleção do autor didático será motivada pelo desejo de enfatizar a lição em vista.[iv]

A questão que insiste em nos instigar é: Como o homem segundo o coração de Deus pôde cair? O Eterno não deveria ter evitado a queda de Davi? Não seria melhor que o hagiógrafo tivesse omitido essa parte sombria da história davídica? Qual é a lição que o autor sacro quer nos passar, revelando um erro — seguido de um plano macabro — que provoca asco no pior dos mortais? Para responder satisfatoriamente a essa questão, é preciso entender a intenção da literatura que está sendo considerada. Diferentemente de outros textos antigos que têm, como já foi mencionado, a intenção de inflar ou supervalorizar os pequenos feitos e omitir os erros de seus soberanos, o Antigo Testamento possui finalidades bastante distintas. Como anteriormente abordado no capítulo 4, ao lidar com a interpretação de material veterotestamentário, é preciso considerar a questão teológica envolvida em toda a narrativa. Assim, o propósito dos “Profetas Anteriores” não é meramente relatar os feitos dos reis, mas é “parte estratégica da auto-revelação de Deus”. Em outras palavras, é um grande equívoco acompanhar a tendência atual de achar que as narrativas históricas do Antigo Testamento são padrões para nossa inspiração e modelo. “Pelo contrário, como auto-revelação divina, sua intenção é transmitir instrução e conhecimento sobre Deus. A mensagem é transmitida não só por meio de narrativas isoladas, mas mediante padrões e ciclos da história descrita geração após geração”.[v] Walton e Hill dissertam o seguinte ainda sobre esse assunto:

Alguns leitores tendem a procurar novos discernimentos e lições em cada relato. No entanto, em vez de buscar “ensinamentos com fundamento na vida de Asa” ou “ensinamentos com base na vida de Saul”, o texto sempre indica padrões e temas que compõem a trama histórica formando a imagem do Deus soberano da aliança. A importância de cada episódio é a contribuição para formar a tela; isoladamente, ele tem pouco valor. A qualidade da cor não possui valor inerente, mas a função na trama ajuda a dar dimensão e nuança. Diante disso, devemos abordar as narrativas por meio do contexto e colocar Deus no centro.[vi]

Apesar dessa verdade, não se pode perder de vista aquilo que foi abordado no capítulo 4 acerca da interação humana com o divino, ou seja, de que não somos meros fantoches no drama existencial, pois isso faria de Deus o autor até mesmo de nossos pecados e falhas. Sei perfeitamente que não vou resolver o problema da “compatibilidade pacífica” ou coexistência entre livre-arbítrio e soberania divina, porém não posso deixar de reconhecer que ambas existem e são reais. Em outras palavras, uma “leitura justa de um texto aceito como fazendo parte da Bíblia deve levar em conta dois elementos: a história é feita por seres humanos, mas é também determinada por Deus”.[vii] Vogels afirma que todos “os povos do antigo Oriente Próximo consideravam que os deuses estavam intimamente ligados aos acontecimentos de sua vida e de sua história” e, portanto, tal perspectiva “da história não é privilégio de Israel”.[viii] Algo que também concordo, porém, com uma ressalva: diferentemente de todos, os judeus não partiam do princípio de que tudo já estava determinado, antes, como já foi discutido no capítulo 4, eles acreditavam no progresso e viam o futuro como um tempo de possibilidade e algo a ser construído por eles e o Eterno Deus. Repito: se o mundo ocidental tem uma história que se divide em antes e depois de Cristo, se acreditamos que o amanhã pode ser melhor que hoje ou, no mínimo, diferente, é porque a revelação rompeu a gigantesca roda etérea do tempo, proporcionando esperança para o amanhã.



Voltemos então ao caso que está sendo considerado. Alguns críticos se apressam ao citar o primeiro livro das Crônicas como um tratado que não relata o pecado de Davi com Bate-Seba, sendo, portanto, um material publicitário que comete o mesmo erro dos cronistas reais de outros monarcas do período do mundo antigo. Eles se esquecem de considerar algo fundamental, que é o propósito do livro. De “[...] autoria desconhecida”, o propósito de Crônicas “é apresentar a história da perspectiva da dinastia davídica”.[ix] Apesar disso, é importante, uma vez mais, insistir na categoria literária do material e não meramente em seu título:

Às vezes a narrativa omite alguns fatos que poderiam ser embaraçosos para Davi e sua dinastia — o caso com Bate-Seba é o exemplo mais evidente — mais tais omissões não necessariamente implicam em que o cronista seja fanaticamente leal a Davi, reescrevendo a história de modo que se conforme ao partido davídico. Há incidentes suficientemente embaraçosos para se destacar tal opinião. Na verdade, 1 Crônicas é uma história que evita as repetições de fatos de Davi que foram fundamentais para a intenção peculiar do cronista. Ele está primeiramente interessado em realçar os aspectos do culto no reino de Davi; ou seja, mostrar que o rei messiânico também exerce a função de sacerdote ungido de Yahweh. Nesse caso, o cronista é mais um teólogo do que um contador de histórias.[x] Interessa-se mais pelo significado do reino de Davi do que pelos processos políticos e militares que possibilitaram o seu estabelecimento.[xi]

Este é o ponto: a teologia do Antigo Testamento. Mesmo reconhecendo que tal assunto já se tornou recorrente em meus textos, não canso de enfatizar esse aspecto, pois é algo relevante quando se trata de interpretação bíblica. Merrill, citando James D. Newsome, “afirma que o elemento profético é forte no livro das Crônicas, servindo para ligar o culto com a monarquia, provendo um caminho para a reinstituição da adoração no templo pós-exílico e restauração da casa de Davi”.[xii] O objetivo do livro é a chave e elemento fundamental para sua correta interpretação. Assim, pensando em mostrar a grande diferença entre o cronista sacro e o profano, Merrill defende que o primeiro tem um propósito muito “claro desde o princípio, pois não faz referência à juventude de Davi ou à sua unção, fatos bem conhecidos.” Em vez de iniciar a narrativa davídica cronologicamente, ele “inicia com a história da partida dos israelitas a Hebrom para constituir Davi rei. Não há sequer uma palavra acerca dos sete anos de intervalo entre a morte de Saul e a ascensão de Davi”.[xiii] Qual é a visão do cronista? “Vendo a ascensão como um fait accompli,[xiv] o historiador enfatiza apenas que foi Yahewh quem permitiu a morte de Saul e concedeu o reino a Davi (1 Cr 10.14)”.[xv]



Pode ser que ainda haja dúvidas infundadas sobre as reais motivações do cronista, entretanto, mesmo o narrador do segundo livro que traz o nome de Samuel, o qual enfatiza os erros de Davi e faz — no sentido que comumente se pensa acerca dos historiadores reais — uma “péssima publicidade” acerca do “homem segundo o coração de Deus”, ressalta os aspectos positivos do seu reinado, fazendo com que Davi seja alguém comum, mas que possuía um diferencial: fé em Deus. Em outras palavras, “[...] Davi não recebe tratamento especial no texto”. Aliás, uma visão lúcida sobre o material mostrará exatamente o oposto:

Incidentes envolvendo engano, insensatez e até massacre de civis permeiam as narrativas de 1Samuel 21—2Samuel 3. Logo, não há razão para suspeitar que o narrador tenha interpretado o texto para favorecer Davi. Pelo contrário, demonstrou que Davi foi legitimamente nomeado para o trono pelo Senhor, levando inexoravelmente ao estabelecimento da aliança davídica.[xvi]

A argumentação deste texto será totalmente voltada para um triste e sombrio episódio da vida de Davi: o adultério que deu origem à mentira que gerou o plano macabro e culminou com a encomenda de um assassinato covarde. Os demais erros do “homem segundo o coração de Deus” não serão considerados por uma série de motivos. Já a Aliança Davídica, que foi mencionada no último trecho citado da obra de Walton e Hill, receberá especial atenção no capítulo 12.

O Pecado e seu Domínio

Infelizmente, para o questionamento do porquê de Davi ter pecado, a resposta é simples e, ao mesmo tempo, complexa: Ele pecou exatamente porque é um ser humano. Por ocasião da dedicação do Templo, o homem mais sábio que já existiu, em oração, assim se expressou ao Eterno Deus: “Quando tiverem pecado contra ti — pois não há pessoa alguma que não peque [...]” (1 Rs 8.46 – BJ[xvii]). Palavra semelhante é repetida pelo apóstolo João, quando ele diz: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós. [...] Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso” (1 Jo 1.8,10). Por que dizer que não pecamos equivale a chamar Deus de mentiroso? Porque “não há pessoa alguma que não peque”. Mesmo sendo o “homem segundo o coração de Deus”, ele não possuía uma natureza divina assim como Jesus Cristo que, apesar de ser chamado de “Filho de Davi” — por sua ascendência ou natureza humana —, era Deus e, portanto, não sujeito a pecar (Hb 4.15; 1 Pe 2.21,22). Ser um “homem de Deus” (2 Cr 8.14), como Davi o era, infelizmente não significa invulnerabilidade ou imunidade em relação ao pecado. Talvez nisso resida o problema de muitas pessoas que se espelham em outras. Quando seus referenciais fracassam, elas igualmente perdem a fé, pois caíram na ilusão de acreditar que existe alguém perfeito.



A doutrina do pecado ou hamartiologia é um dos grandes ensinamentos que precisa ser resgatado nos dias atuais. Saber que todos nós fomos afetados pela realidade do pecado, que por meio de um ato único entrou no mundo e, consequentemente, no seio da humanidade (Gn 3; Rm 3.9; 5.12), é muito importante, pois mostra que sua universalidade é algo que só pode ser resolvido com também um único ato universal (Rm 5.18,19). O pecado é, por definição, um desvirtuamento do propósito original de Deus para o homem, pois o “sentido básico da palavra é o de errar um alvo ou um caminho”.[xviii] Justo Gonzalez afirma que todo “ser é criado por Deus e é bom. O mal é a corrupção do bem, e sua origem deve ser atribuída a um ser que é bom em si mesmo, mas que é capaz de praticar o mal. Somente assim alguém pode alegar que Deus é o criador de todas as coisas, mas não é o autor do mal”.[xix] Assim, Adão, o primeiro homem, antes de pecar, como disserta Elienai Cabral, “possuía um corpo e um espírito (e alma) perfeitamente adequados um ao outro. Não havia conflito entre os impulsos pessoais e os espirituais. Era um tipo de perfeição física e espiritual, mas não era uma perfeição absoluta, e sim relativa e provisória (Gn 3.22)”.[xx] Mesmo porque ele era humano, e não um semideus ou um “deus menor”. Como muitos outros autores, Gonzalez enfatiza a Queda:

Antes da queda, Adão usufruía de vários dons, dentre os quais aquele livre-arbítrio que, [...], dava a ele o poder de não pecar (posse non peccare), bem como o poder para pecar (posse peccare). Adão não tinha o dom completo da perseverança, isto é, o dom de ser incapaz de pecar (non posse peccare), mas ele tinha o dom de ser capaz de perseverar no bem, o poder para não pecar.
Mas a queda veio mudar a questão. O pecado de Adão foi seu orgulho e incredulidade, os quais o levaram a fazer mau uso da árvore boa que Deus plantara no jardim. Como conseqüência desse pecado, Adão perdeu a possibilidade de viver para sempre, seu conhecimento especial, e seu poder para não pecar. Depois da queda, ele ainda era livre, mas tinha perdido o dom da graça que o capacitava a não pecar; era livre, pois, somente para pecar.
[xxi]

A despeito de ser diferente o tratamento que se dá ao pecado nas duas Alianças ou Testamentos, não se pode esquecer que ele, em si, é igual. Ou seja, ele é o mesmo, pois a graça não afeta em nada a sua natureza maligna. Ele continua com toda a sua vileza e é sempre algo indesejável com o qual, infelizmente, temos de lidar. E, por mais paradoxal que pareça, foi exatamente o fato de o casal progenitor possuir livre-arbítrio ou vontade própria, algo que é respeitado por Deus, que proporcionou as condições para que pecasse. O desafio reside justamente no que Deus falou a Caim: “E, se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e para ti será o seu desejo” (Gn 4.7b). Davi não pecou por ser o “homem segundo o coração de Deus”, mas apesar de sê-lo. Muitos talvez desconheçam o que significa pecado residente ou pecaminosidade latente, entretanto, tal estado ou disposição inata predispõe o ser humano ao erro. É bom dizer que a ação é uma atitude voluntária e deliberada do agente humano, nunca uma espécie de êxtase que leva alguém a cometer determinadas práticas pecaminosas sem que a própria pessoa queira. A saída, no contexto neotestamentário, é uma só: aceitar a Cristo e saber que existe um Advogado (Defensor) junto de Deus, o qual intercede por aqueles que o aceitaram (1 Jo 2.1,2).




No contexto da graça, é preciso refletir sobre a questão de que uma nova natureza é implantada no crente assim que ele, de fato, converte-se (Jo 3.3-8; Gl 5.16-25). Essa “nova natureza” funciona, de certa forma, como uma predisposição que o capacita a fugir do pecado e cooperar com o Espírito que agora nele habita (1 Co 3.16; 6.19; 2 Co 6.16). Qual foi o maior temor de Davi após ter pecado e ser repreendido pelo profeta Natã? De longe, seu temor não foi perder o reinado (Sl 51.11), mas sim que o Espírito de Deus dele saísse e então acabasse como seu antecessor que, depois de ser possuído pelo Espírito de Deus e realizar grandes feitos, acabou sob a influência e domínio de um espírito maligno (1 Sm 16.14-23 cf. Lc 11.24-26). Aqui está uma das hipóteses sobre o fato de Davi ter pecado e receber perdão, e Saul não. Enquanto o primeiro pecou e se arrependeu (2 Sm 12.13; Sl 51), o segundo, além de pecar e não se arrepender, ainda se preocupou apenas com sua reputação (1 Sm 15.30). Tal perigo ronda a vida de qualquer pessoa nos dias de hoje. Às vezes nos preocupamos simplesmente em que repercussão terá o nosso erro, o que vamos perder em termos de posição político-eclesiástica, mas enquanto isso a comunhão com o Eterno está rompida.




NOTAS



[i] VOGELS, Walter. Davi e sua história. 1 Samuel 16,1―1 Reis 2,11. 1.ed. São Paulo: Loyola, 2007, p. 11.
[ii] HILL, Andrew E.; WALTON, J. H. Panorama do Antigo Testamento. 1.ed. São Paulo: Vida, 2007, p. 190.
[iii] Ibid., p. 190, 191.
[iv] Ibid., p. 191.
[v] Ibid., p. 191, 192.
[vi] Ibid., p. 192.
[vii] VOGELS, Walter. Davi e sua história. 1 Samuel 16,1―1 Reis 2,11. 1.ed. São Paulo: Loyola, 2007, p. 29.
[viii] Ibid., p. 29.
[ix] MERRILL, Eugene. História de Israel no Antigo Testamento. O reino de sacerdotes que Deus colocou entre as nações. 7.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p. 244.
[x] Alguns autores, como Vogels, por exemplo, têm outra linha de pensamento, e defendem que os textos sobre Davi devem ser considerados como “história e teologia”. Assim, temos “então uma história profética ou uma história teocrática”. Ibid., p. 29.
[xi] MERRILL, Eugene. História de Israel no Antigo Testamento. O reino de sacerdotes que Deus colocou entre as nações. 7.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p. 245.
[xii] (“Toward a New Understanding of the Chonicler and His Purposes”, JBL 94 [1975]: 216) – Nota do autor, p. 245.
[xiii] Ascensão aqui se refere ao episódio que relata Davi assumindo a totalidade de Israel (2 Sm 5.5b), não considerando os sete anos e meio em que reinou apenas sobre Judá (2 Sm 5.5a).
[xiv] Inglês: Fato consumado.
[xv] Ibid., p. 245.
[xvi] HILL, Andrew E.; WALTON, J. H. Panorama do Antigo Testamento. 1.ed. São Paulo: Vida, 2007, p. 235.
[xvii] Bíblia de Jerusalém. Edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2008.
[xviii] ARCHER, Gleason L.; HARRIS, R. Laird; WALTKE, Bruce K. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. 1.ed. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 450.
[xix] GONZALEZ, Justo L. Uma história do pensamento cristão. 1.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 41,42.
[xx] CABRAL, Elienai. Hamartiologia — A Doutrina do Pecado In: GILBERTO, Antonio (Ed.). Teologia sistemática pentecostal. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p. 307.
[xxi] GONZALEZ, Justo L. Uma história do pensamento cristão. 1.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 43.




CARVALHO, César Moisés. et. al. Davi. As Vitórias e as Derrotas de um homem de Deus. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, pp.141-50.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

492 ANOS DEPOIS: A REFORMA AINDA FALA?



I FÓRUM TEOLÓGICO

A REFORMA AINDA FALA?

Prof° César Moisés

A RELAÇÃO ENTRE REFORMA E PENTECOSTALISMO


Proposições
1 – Dentro de uma perspectiva contemporânea, qual seria a real leitura dos aspectos da Reforma (sola fide; sola Christus; sola gratia; soli Deo gloria; sola Scriptura) que ainda hoje podem causar algum tipo de impacto na atual conjuntura religiosa?


À guisa de uma despretensiosa resposta às proposições deste fórum teológico, em uma perspectiva pentecostal, pretendo lembrar que o “movimento conhecido de modo um tanto vago como ‘Reforma’ surgiu de uma determinada matriz complexa e heterogênea de fatores sociais e ideológicos, sendo que estes últimos se encontram associados a personalidades individuais, movimentos intelectuais, escolas de pensamento e universidades, de tal modo que desafiam as generalizações crassas que constituem um número excessivo de interpretações desse fenômeno”.[1] Em outras palavras, já de início, é preciso ter muito claro o fato de que qualquer concepção generalizante e homogênea de tal acontecimento constitui-se em um grave equívoco — tanto histórico quanto epistemológico. A fim de entendê-lo melhor, é preciso considerar a série de movimentos reformadores que, de comum, só possuíam o propósito de que a inquestionável autoridade papal acabasse. Isso significa que os focos reformistas tinham motivações as mais distintas possíveis. Assim, a “imposição da conformidade intelectual”, que reinava soberana e unilateralmente através do autoritarismo clerical, com o advento da imprensa (leia-se, da popularização da informação), proporcionou a proliferação das ideias e, por conseguinte, a multiplicação de novas reflexões e percepções. A própria noção de que a “localização geográfica de um pensador era de grande importância com relação aos recursos intelectuais disponíveis e às suas opções teológicas e também com referência à facilidade com que qualquer programa de reforma podia ser colocado em prática”[2], oferece pistas importantíssimas para o entendimento de que as teologias reformadoras de Wittemberg e Zurique, por exemplo, surgiram em ambientes bastantes distintos, pois “a primeira foi, inicialmente, um movimento reformador acadêmico e a última, um movimento social e eclesiástico”.[3] Dessa forma, a própria distinção entre o que se convencionou chamar de “Reforma oficial” (do clero) e “Reforma radical” (do povo, representada pelos anabatistas), isso para mencionar apenas duas, já são focos de questões circunstanciais que provocaram o primeiro Grande Cisma (a ruptura entre a Igreja Oriental e a Ocidental), e acaloraram os debates dos Concílios. É importante refletir que, no âmbito eclesiástico, essas primeiras discussões que acabaram deflagrando os sinais do movimento reformista, foram exatamente de matriz hermenêutica, pois na esteira da “interpretação” é que se encontravam as justificativas para a prática e exercício dos piores abusos que se possa imaginar e, lamentavelmente, com um suposto respaldo escriturístico. Na realidade, esse tipo de abuso passou a existir desde quando elegeu-se uma classe privilegiada para o exercício exegético. Historicamente, sabe-se que saqueando a população do letramento, já tem-se 80% da manobra garantida. Privando o laicato letrado do direito ao livre exame, completa-se a totalidade do domínio.


É sob este prisma que a Reforma deve ser analisada. O espectro dominador, que sob a falsa acusação de heresia vitimou a humanidade por longos dez séculos, precisa sempre ser lembrado para que o cristianismo não se esqueça o quão horroroso foi ver a mensagem que liberta transmutada em discurso aprisionador. Após relembrar a Reforma como fato histórico, situado no tempo e no espaço, é preciso avançar a discussão e entender o conceito de Ecclesia reformata et semper reformanda est (“A igreja reformada está sempre se reformando”). A quem interessa os postulados da Reforma? A pergunta passa pela reflexão do que é “heresia”. À época, os reformadores, juntamente com as massas que não mais aceitavam acriticamente o domínio da inquestionabilidade clerical, foram considerados hereges. Talvez, pelo modus operandi de algumas denominações, um retorno aos postulados reformistas seja um “desvio”, um atentado à determinada liderança. Foi ninguém menos que Wycliff (anteriormente ardoroso defensor de que a tradição e a igreja deviam servir como guias na interpretação bíblica), quem paulatinamente se convenceu de “que muito da assim chamada tradição cristã contradizia a Bíblia”.[4] Aliás, conhecido por sua “teologia do domínio”, discutida em seus dois tratados (Sobre o senhorio divino e Sobre o senhorio civil), Wycliff defendia, conforme comentado por Justo Gonzalez, que o “senhorio divino é a base para todo outro senhorio, pois apenas Deus tem domínio legal e necessário sobre outros. Os homens, e mesmo os anjos, podem ter domínio sobre outras criaturas apenas porque Deus, a quem aquele domínio pertence propriamente, concede ou ‘empresta’ uma parte infinitésima dele para uma criatura, para ser usado de acordo com a vontade divina.[5] É verdade que pessoas frequentemente usam seu domínio ― tanto civil quanto eclesiástico ― de um modo impróprio; mas quando eles o fazem, seu poder não é mais domínio evangélico em que alguém é de fato um servo, mas é, ao invés, um domínio coercivo ou ‘humano’.[6] Segue-se que a autoridade eclesiástica ― cujo domínio de qualquer modo é limitado ao espiritual ― perde seu domínio, quando deixa de usá-lo justamente, e o leigo não lhe deve mais nenhuma fidelidade”.[7] Obviamente que quem se valia do poder, acusaria tais denúncias que, 150 anos antes da Reforma oficial já eram comuns, como “heresias”. Alister McGrath, afirma que esse “termo foi empregado extensivamente ao longo da Idade Média com certas conotações que distanciam o uso medieval do termo de suas associações originais. A argumentação contra a permanência do uso do termo ‘heresia’ para designar movimentos religiosos na Idade Média foi apresentada pela primeira vez em 1935, por Herbert Grundmann, que argumentou que a ideia foi definida de um ponto inquisitorial, e não, teológico. A ‘heresia’ era definida em termos de desafios à autoridade da igreja, da perspectiva daqueles que estavam sendo desafiados”.[8] Uma vez que, virtualmente, a busca por tais postulados significou a desestruturação do poder clerical na Idade Média; ansiar pelo mesmo ou propor um resgate de tais pilares atualmente não seria também considerado como um atentado à liderança ou, no mínimo, visto como rebelião? Pois, em minha modesta avaliação, muita coisa estranha que se esgueira e prolifera em nosso meio, só ocorre por falta de conhecimento da Palavra de Deus. Com a noção atual que temos de heresia e ortodoxia, é mesmo estranho pensar que “muitos daqueles estigmatizados como ‘hereges’ pela igreja medieval eram, na verdade, cristãos ortodoxos”[9] e, contraditoriamente, os “ortodoxos” daquele período talvez, por alguns, ainda o sejam considerados assim hoje. “Assim, um relato puramente histórico do conceito de heresia na Idade Média deve definir a ortodoxia em termos dos ensinamentos papais e a heresia em termos de dissensão desses ensinamentos. A heresia tornou, cada vez mais, um conceito jurídico. Enquanto o período patrístico via a heresia como um desvio da fé católica, os juristas dos séculos 12 e 13 conseguiram redefinir o conceito em termos de rejeição da autoridade eclesiástica, especialmente da autoridade papal. De acordo com a argumentação de Robert Moore, a ampliação da categoria de heresia constituiu um instrumento importante de controle social. A redefinição medieval da heresia situa o cerne da mesma no questionamento do poder papal e não no desvio da ortodoxia cristã”.[10]


Por não se adequar ao continuísmo medieval, e alinharmo-nos ao protestantismo em sua rejeição total dessa postura dominadora, é que posso seguramente afirmar que os pentecostais somos também ligados à Reforma. Como a “Reforma luterana ou, em geral, a Reforma oficial do século XVI não foi, em última instância, um movimento dos leigos, mas dos sacerdotes; não foi um movimento dos pobres e camponeses, mas dos nobres e dos príncipes, que influenciaram com sua autoridade para apoiá-la”.[11] Por esse aspecto, faço coro com Bernardo Campos, acerca do fato de o movimento pentecostal, que tem um caráter mais leigo, manter mais vínculo com a Reforma radical que com a “Oficial”. Como este movimento enfatizava um batismo consciente e não apenas ligado à tradição familiar, propondo que as pessoas convertidas deveriam batizar-se por decisão própria (desconsiderando o batismo praticado pelos pais na infância), os seus representantes foram chamados de “anabatistas”. Assim, desde “então se conhece todos os dissidentes do catolicismo e do protestantismo oficial como ‘anabatistas’. Incluem-se sob essa denominação as diversas tendências e formas de viver o cristianismo do Espírito”.[12] Apesar de o próprio Bernardo Campos classificar como “insuficiente” essa denominação, isso porque a “dissidência religiosa” foi, segundo ele, “muito diversificada”; é bom lembrar que um dos principais expoentes da Reforma radical, Tomás Müntzer, juntou-se aos anabatistas que já “praticavam o dom da profecia”, e reformou o culto, eliminando, “antes de Lutero, o uso do latim, deixando que se lesse no culto dominical a Bíblia toda e não somente as epístolas e os evangelhos”.[13]


É importante deixar claro que não são apenas as “vozes internas” do pentecostalismo ― como Bernardo Campos, por exemplo ― que afirmam ser o movimento herdeiro da Reforma. Foi o bispo anglicano Robinson Cavalcanti que, em artigo intitulado “Pseudo-pentecostais: nem evangélicos, nem protestantes”, mencionando a Assembleia de Deus, referiu-se aos pentecostais chamando-nos de “históricos, por [nossa] antiguidade e mobilidade social e cultural”. Se não bastasse a óbvia verdade de que o “discurso e prática” pentecostais indicam a existência de “vínculos ou pontos de contatos com a Reforma Protestante do Século 16: as Escrituras, Cristo, a graça, a fé”, o bispo anglicano ainda aponta o fato de que os pentecostais estamos “redescobr[indo] o valor da história, de uma confessionalidade e de uma teologia sólida”.[14] A maior prova disso é esta instituição e a realização desse Fórum Teológico.


Reconhecer essa verdade não corresponde, obviamente, a “fechar os olhos” para os grandes problemas que o pentecostalismo enfrenta para manter-se como digno herdeiro dos postulados da Reforma, sobretudo, os ligados à teologia e não somente ao inconformismo pós-medieval. A despeito de entender que é preciso cuidar desse aspecto, alinho-me com o pensamento de Alderi Souza Matos (que também reconhece as igrejas pentecostais como “filhas (ou netas) da Reforma Protestante, por manterem certos elementos básicos” típicos da Reforma, tais como “(justificação pela fé, ênfase nas Escrituras, sacramentos bíblicos etc.)”. Questionado acerca da diferença entre Reforma e reavivamento, fez a devida distinção sem, contudo, desprezar a coexistência dos dois fenômenos: “A reforma tem a ver com a restauração da verdade bíblica, com o resgate das convicções básicas da fé cristã, em suma, com o aspecto teológico, doutrinário. O reavivamento está mais ligado à vida prática, à espiritualidade, à comunhão com Deus, ao aprofundamento da vida cristã. Sem avivamento, a reforma pode tornar-se fria, formal e árida, reduzindo-se a uma mera preocupação com a ortodoxia. Por outro lado, sem reforma, o avivamento pode descambar para o emocionalismo superficial e efêmero, para o individualismo que busca experiências arrebatadoras, mas sem um compromisso profundo com Deus e com a igreja”.[15]


Assim, de um ponto de vista pentecostal, eu diria que um dos grandes desafios da igreja atual, é manter-se doutrinariamente ligada aos postulados da Reforma, sem perder de vista o aspecto dinâmico e sociológico da Igreja. Isso quer dizer que os fundamentos da Reforma devem ser sempre calibrados com o supremo alvo do evangelho o qual é salvar vidas. Neste aspecto, a mensagem humana deve cumprir o seu papel de comunicar o evangelho, sem esquecer que é dependente do auxílio do Espírito Santo de Deus. Quando mencionei “vidas”, o fiz para que alguém não entenda que o evangelho seja unilateral e reducionista, preocupando-se unicamente com “almas”. Este é outro grande desafio do cristianismo contemporâneo: mostrar-se relevante e desinteressado consigo mesmo, tendo em vista que a humanidade ― pela qual Jesus Cristo morreu ― é o mais importante. Mas não unilateralmente, ou seja, a humanidade desprovida de realidade histórica, conjuntural, terrena. A humanidade total, com todas as suas mazelas, deficiências, dificuldades e circunstâncias que o evangelho, longe de manter o status quo deve procurar, urgentemente, transformar.


2 – Poderiam as denominações protestantes, num contexto pós-modernista, manter-se na vanguarda no processo de depuração do cristianismo diante das inúmeras variantes denominacionais?


Sem querer ser simplista, eu diria que depende de uma diversidade de fatores. O primeiro deles é a forma como cada denominação ou segmento avalia sua progressão e/ou evolução. O que a caracteriza? Qual o instrumento ou parâmetro utilizado para aferir sua aprovação? O número de adeptos? O “quanto” consegue manter-se semelhante aos primórdios do movimento, ou seja, sua “identidade”? Sua capacidade de acompanhar as mudanças e adaptar-se à sua época? Uma vez que a “Reforma Protestante não foi apenas um movimento religioso; [mas] foi também um conflito de poderes e de interesses dos diversos sujeitos sociais da época” — algo que quase não é mencionado —, é importante entender que, assim como qualquer outro acontecimento histórico, ela também foi impulsionada pelo fato de que as “condições sociais da época se configuravam de acordo com as transformações culturais em andamento”.[16]


Sobre a possibilidade de uma “nova reforma”, deixo claro o meu total ceticismo acerca de tal pensamento, pois acho impossível que, com tantos segmentos no universo cristão, seja possível tal acontecimento se repetir. As várias “cisões” que ocorrem todos os dias no âmbito restrito das grandes e pequenas das centenas de denominações brasileiras, não podem, sob hipótese alguma ser classificadas como “pequenas reformas”. Em entrevista à Ultimato em 2005, o já citado historiador Alderi Souza Matos, quando inquirido acerca do fato de que “reforma religiosa sempre provoca cisão na igreja”, respondeu que ela ocorre exatamente em “virtude das resistências que sempre se manifestam contra os reformadores por parte daqueles que desejam a manutenção do status quo, inclusive político-eclesiástico. Por outro lado, a maior parte das cisões que têm ocorrido entre os cristãos, especialmente protestantes, não decorre de anseios legítimos de reforma, mas de outros fatores, alguns muito pouco recomendáveis (personalismos, conflitos de liderança, ensinos inquestionáveis)”.[17]


Esse é o ponto. Enquanto muitos focos reformistas surgiram do anseio de uma pequena parte responsável do clero e, majoritariamente do próprio povo, em libertar-se; atualmente os projetos individuais e os reinos pessoais tomam conta. A megalomania domina. O povo gosta de ser dominado e não quer usufruir do direito conquistado do livre exame da Bíblia. No âmbito pentecostal, questiono: Será que existe, por parte dos pentecostais, o interesse em manterem-se distintos, ou seja, das nuances e matizes (pós-pentecostalismo, iso-pentecostalismo e pseudopentecostalismo) que a cada dia incham os relatórios sociológicos com o seu números? Ou estará ele abrindo mão de sua tradição pentecostal, a qual conecta-se com a Reforma, simplesmente para entrar na guerra fria do “mercado de almas”? Eis o nosso desafio.


NOTAS
[1] MATOS, Alderi Souza de. Entrevista: A igreja é reformada, mas está sempre carecendo de reforma. Revista Ultimato. Edição 314, Ano XXXVIII. Viçosa: Ultimato, julho-agosto de 2005, pp.39-40.
[2] CAMPOS, Bernardo. Da Reforma Protestante à Pentecostalidade da Igreja. Debate sobre o Pentecostalismo na América Latina. 2.ed. São Leopoldo: Sinodal, 2002, p.14.
[3] MATOS, Alderi Souza de. Entrevista: A igreja é reformada, mas está sempre carecendo de reforma. Revista Ultimato. Edição 314, Ano XXXVIII. Viçosa: Ultimato, julho-agosto de 2005, pp.40-1.
[4] CAVALCANTI, Robinson. Artigo: Pseudo-pentecostais: nem evangélicos, nem protestantes. Revista Ultimato. Edição 314, Ano XLI. Viçosa: Ultimato, setembro-outubro de 2008, p.41.
[5] CAMPOS, Bernardo. Da Reforma Protestante à Pentecostalidade da Igreja. Debate sobre o Pentecostalismo na América Latina. 2.ed. São Leopoldo: Sinodal, 2002, p.21.
[6] Ibid., p.22.
[7] Ibid., p.22.
[8] GONZALEZ, Justo. Uma História do Pensamento Cristão. De Agostinho às vésperas da Reforma. Vl.2 1.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p.317.
[9] De domin. div. 1.3.2. (Nota do autor). Ibid., p.318.
[10] “Wycliff estabeleceu uma distinção entre três tipos de domínio: primeiro, existe o domínio natural; segundo, o domínio humano, que é por natureza coercivo; terceiro, o domínio evangélico, que é mais elevado, e é mais um ministério do que um senhorio no sentido humano” (Nota do autor). Ibid., p.318.
[11] De civ. domin. 1.8. (Nota do autor). Ibid., p.318.
[12] MCGRATH, Alister. Origens Intelectuais da Reforma. 1.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p.40.
[13] Ibid., p.41.
[14] Ibid., pp.40-1.
[15] MCGRATH, Alister. Origens Intelectuais da Reforma. 1.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p.183.
[16] Ibid., p.184.
[17] Ibid., p.186.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A Noção de Tempo na Antiguidade Judaica


Partindo do título deste capítulo [Davi e o Tempo de Deus em sua Vida], não há como não tratar do assunto “tempo” (hb. yôm; gr. aōn). Do ponto de vista teológico, toda discussão que envolve a questão “tempo” é muito importante, sobretudo quando se sabe que há abundantes menções da expressão em toda a Bíblia, principalmente relacionada ao cumprimento de determinadas profecias (Jr 31.1; 33.15; 46.21; 50.4,27,31, etc.). É o que se conhece como “tempo de Deus”, ou seja, o momento em que o Eterno realizará o cumprimento de determinada promessa. Em sentido pleno, todo o tempo pertence a Deus, pois Ele não apenas o precede (Is 43.13; Dn 7.9), transcende (Sl 90.4), mas também o criou (Gn 1) e domina (Sl 74.16), entretanto, quando se fala em “tempo de Deus, o que se quer assinalar é a sua intervenção direta em ocasiões específicas (principalmente as vaticinadas ou preditas), as quais demonstram de maneira explícita sua soberania. Poderia, com razão, se perguntar: “Há algum momento, por mais fortuito que seja, que escapa à sua soberania?” Evidentemente que não! Porém, existem situações em que sua ação é mais claramente demonstrada.1 Até porque, para o judeu, “o tempo e a história eram inseparavelmente vinculados”, em outras palavras, o “tempo tinha interesse para ele tão-somente à medida que era qualificado por um evento específico”.2 O judeu sabia, pelas lições da própria história, que o Eterno, no momento dEle, entraria com providência e agiria mudando a configuração de qualquer quadro (tanto no sentido positivo quanto negativo, humanamente falando).



Uma das características desse período que estamos atravessando é o desapego a tudo que diz respeito ao passado. A impressão é que o mundo começou com a existência individual de cada pessoa, de forma que “fazemos nosso próprio destino”, traçamos o nosso caminho e nada que aconteceu antes pode nos afetar. Além de presunçosa, tal postura é estúpida. Por isso, acredito que é preciso refletir que a noção de tempo ― com a linearidade que conhecemos atualmente ―, não é algo universal e nem mesmo comum. A despeito de a discussão acerca do tempo parecer banal, e a própria afirmação de que ele é linear soar como extremamente óbvia para nós, é preciso saber que tal herança histórica é o que o historiador Thomas Cahill chama de “dádiva dos judeus” para nós ocidentais:

Para os antigos, o futuro seria sempre uma reprise do passado, assim como o passado era simplesmente uma reprise terrena do drama celeste: “A história se repete” ― isto é, a falsa história que não é história, mas mito. Para os judeus, a história também está repleta de lições de moral. Mas a moral não é que a história se repete, e sim que há sempre algo novo: um processo que se desenrola ao longo do tempo, cuja direção e fim não podemos saber, a menos que Deus nos forneça uma dica do que acontecerá. O futuro não será o que aconteceu antes; na verdade, a única realidade do futuro é ainda não ter acontecido. É incognoscível; e o que será não pode ser descoberto por augúrios ― pela interpretação das estrelas ou exame de entranhas. [...] Por isso o conceito de futuro ― pela primeira vez ― oferece a promessa, em vez da mesma coisa de sempre. Não estamos condenados, não estamos presos a um destino predeterminado; somos livres. Se qualquer coisa pode acontecer, somos realmente liberados ― tão liberados quanto os escravos israelitas quando cruzaram o mar dos Caniços.3

A própria “invenção” mitológica no mundo antigo era uma forma de assimilação do fluxo do tempo e uma maneira de manter viva a ideia de ter o antepassado sempre presente ou de “volta” à família. Nada era histórico no sentido de se construir, mas místico, na pior acepção possível da palavra. Nesse contexto, os seres humanos eram meras marionetes no drama existencial, e os deuses, estes sim, responsáveis absolutos por todas as realizações. O tempo e o próprio universo não eram mais que uma imensa roda etérea, girando sem parar, tendo que acontecer novamente aquilo que já havia sido. O que ocorre é que a visão de mundo judaico-cristã tornou-se tão comum para nós, e achamos tão “impossível nos livrarmos dela ― até mesmo para um breve experimento ―, que é agora a visão cósmica de todos os outros povos que nos parece exótica e estranha”.4 A dissertação de Cahill não é simplesmente uma particularidade de sua pena ou seu modo arguto de interpretar o mundo antigo, mas o resultado de pesquisas históricas convergentes, as quais apontam para a mesma direção:

Os formuladores de mito no antigo Oriente Médio não concebiam o tempo em termos de uma sequência horizontal e linear de acontecimentos, que ia de um princípio histórico até uma consumação final de todas as coisas. Em vez disso, consideravam o tempo como cíclico, com a reestruturação e revitalização anuais do universo. Seus mitos da criação eram recitados em festas anuais de ano novo como palavras mágicas que deviam acompanhar um ritual de magia a fim de reconcretizar a cosmologia original, a saber, a passagem do caos para o cosmos. No pensamento mitopoéico o tempo não tem nenhuma significação nem a história tem sentido algum.5

Os historiadores destacam que “Gênesis 1 deixa perceber uma noção totalmente diferente de tempo”, isto é, distinta da dos demais povos, pois enquanto aqueles vivem em um “mundo repetitivo”, para os judeus “o tempo é concebido como linear, e os acontecimentos vão ocorrendo sucessivamente dentro dele”, em uma palavra, “do ponto de vista bíblico o comportamento do homem hoje determina sua condição no futuro”.6 Como todos sabemos, o primeiro livro da Bíblia é parte do Pentateuco, escrito por Moisés. Apesar de o material escrito ter aparecido muito tempo depois de acontecerem os fatos ali narrados, é imprescindível atentar para a verdade de que após a Queda e suas consequências, a humanidade perde-se em noções totalmente avessas e ilógicas acerca do tempo. O entendimento da noção linear de tempo será inserida no mundo antigo a partir da revelação ou epifania.7 Thomas Cahill chega a afirmar que esse rompimento do pensamento judaico acerca do tempo no mundo antigo (o que modernamente conhecemos como “recorrência eterna”) é tão significativo e inaugura uma forma tão diferente e nova de concepção “a ponto de se poder dizer com certa justiça que [...] foi a única idéia nova que os seres humanos já tiveram”.8 Mas o que mudou essa visão, e de tal maneira, que ela agora pareça completamente alienígena para nós? O mesmo Cahill responde:

Esse maravilhoso e novo sentido de tempo não se abateu sobre os israelitas de repente. O que começou na convocação de Avraão para abandonar sua terra e seu povo e partir para um destino ignorado germinou na vocação de Moshe para tirar seu povo escravizado da atmosfera assombrada por um deus do Egito cíclico, onde tudo que seria já tinha sido e todas as perguntas importantes tinham sido respondidas, já tinham sido transformadas em pedra, como as estátuas, imóveis e de olhar fixo, do faraó. Nessas duas viagens, fomos do pessoal (o destino de Avraão) ao coletivo (o destino do Povo de Israel). Fomos de um deus padroeiro, um deus doméstico que se carrega de sorte, a Yhwh, o Deus dos deuses, cujo poder é superior ao maior poder a que a Terra pode apelar. Juntas, essas duas grandes fugas nos oferecem um senso completamente novo do passado e do futuro ― o passado como constituindo o presente, o futuro como realmente não conhecido.9

Depreende-se da argumentação de Cahill que o tempo visto como possibilidade é uma dádiva dos judeus para o mundo ocidental. Tal concepção, por conseguinte, sugere que o tempo não é uma gigantesca roda etérea girando sem parar, mas teve início e caminha para um “fim”. Tal fim ― no sentido aqui argumentado ― não é o que comumente se designa como o “fim do mundo” ou como o fim da existência do indivíduo, e sim o “tempo de Deus”, o chegar ao ponto e estágio estipulados pelo Eterno. E onde tudo isso ocorre? No “tempo” e no decurso do fluxo chamado “história”. Como afirma Oscar Cullmann: “É sobre uma linha reta traçada no âmbito do tempo ordinário que Deus se revela e é de lá que Ele dirige não somente a história em sua totalidade, mas ainda todos os eventos da natureza: não há lugar aqui para as especulações sobre Deus que se coloquem como independentes do tempo e da história”. Tendo preliminarmente entendido essa verdade, o mesmo autor ainda defende que “os atos de Deus não se revelam ao homem em nenhuma outra parte mais concretamente do que na história que, do ponto de vista teológico, representa, em sua essência íntima, as relações que existem entre Deus e os homens”.10 A diferença é significativa e substancial, pois enquanto os outros povos antigos não atribuíam nenhum sentido à história e a noção de tempo era extremamente precária, o judeu a entende como a arena da revelação e intervenção divinas. Decorre desse raciocínio, que é preciso fazer distinção ― teológica e biblicamente falando ―, entre duas noções principais de tempo (ainda que a discussão migre agora do hebraico para o grego, ou seja, vá do Antigo Testamento para o Novo Testamento, ela é oportuna e pertinente à argumentação desenvolvida até aqui):

As duas noções que designam com o máximo de clareza essa concepção são aquelas que exprimem, em geral, os termos καιρός (kairos, kairoi) e αìών (aiôn, aiôns). Não é fácil dar uma tradução adequada aos diversos termos que se referem ao tempo. Eles revestem em cada passagem um sentido teológico determinado pelo contexto. Por outro lado, os dicionários nos ensinam que eles podem ser igualmente utilizados no Novo Testamento sem significação teológica especial. O que caracteriza o emprego de kairos é que ele designa no tempo um momento determinado por seu conteúdo, enquanto que aiôn designa uma duração, um espaço de tempo, limitado ou não.11

É preciso considerar que Oscar Cullmann está tratando da história da salvação12 e sua análise se concentra especificamente no Novo Testamento. Entretanto, em virtude da utilização, muitas vezes indiscriminada, do termo kairos em mensagens motivacionais e de autoajuda, vale a pena destacar a exposição de Cullmann acerca do seu uso:

Kairos, no uso profano, significa a ocasião particularmente propícia para uma empreita, o momento do qual se fala há muito tempo sem conhecer sua época certa, a data que corresponde ao que se chama, por exemplo, na língua moderna “o dia D”. É geralmente em virtude de considerações humanas que um momento nos parece particularmente propício para a execução deste ou daquele projeto, tornando-se um kairos. É neste sentido profano que Félix diz ao apóstolo Paulo (At 24.25): “Quando o momento chegar, eu te chamarei”.
No Novo Testamento o uso deste termo, aplicado à história da salvação, permanece o mesmo, porém, com a seguinte reserva: este não se refere a estimativas humanas, é um decreto divino que faz desta ou daquela data um kairos, e isto em vista da realização do plano divino da salvação. Isto se dá porque este plano, em sua realização, está ligado aos kairoi, aos momentos escolhidos por Deus, que é uma história da salvação.
13

Outra coisa muito importante que se aprende da visão judaica acerca do tempo é que o “israelita preparava-se para um fim próximo do tempo presente, e esperava por uma nova era, concebida ― a não ser em exceções [...] ― em termos temporais”,14 em outras palavras, não havia simplesmente uma esperança futurística supratemporal, ou seja, além da região temporal ou do nosso espaço-tempo, mas a crença e confiança de que Deus interviria na realidade humana, na história dos homens, seres falíveis, finitos e criados. Um Deus que se dá ao luxo de vir em busca de seus servos não é algo comum na antiguidade. Entretanto, esse é o Deus do judaísmo e do cristianismo: um Ser Todo-poderoso que desde a revelação ou epifania da experiência de Abraão até a encarnação de Jesus Cristo, a revelação total do “mistério que esteve oculto desde todos os séculos e em todas as gerações e que, agora, foi manifesto aos seus santos” (Cl 1.26), alcança os homens através da história. Este Deus, seguramente, pode ser chamado de o “Deus das eleições soberanas”.


NOTAS

[1] Oscar Cullmann, por exemplo, diz que não “são todas as partes da linha contínua do tempo que formam a história da salvação propriamente dita, mas, antes, os kairoi, os pontos isolados na totalidade do curso do tempo” (Cristo e o tempo. Tempo e História no Cristianismo Primitivo. 2.ed. São Paulo: Custom, 2003, p. 78).
[2] BROW, Colin & COENEN, Lothar. Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. 2.ed. São Paulo: Vida Nova, 2000, p. 2.467.
[3] CAHILL, Thomas. A dádiva dos judeus. Como uma tribo do deserto moldou nosso modo de pensar. 1.ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999, p. 143.
[4] Ibid., p. 18.
[5] ARCHER, Gleason L.; HARRIS, R. Laird; WALTKE, Bruce K. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. 1.ed. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 605.
[6] Ibid., p. 605.
[7] Giovanni Reale e Dario Antiseri, em sua História da Filosofia, afirmam que os próprios gregos (e também os estóicos) eram a-históricos e a ideia de progresso lhes era, no mínimo, estranha. Isso apenas reforça o fato de que o rompimento com a visão cíclica não é produto de reflexão humana, mas que a mudança veio através da revelação ou epifania. Os autores esclarecem que a “concepção de história expressa na mensagem bíblica, ao contrário, não é cíclica, mas retilínea: no transcorrer do tempo, verificam-se eventos decisivos e irrepetíveis, que são como que etapas que destacam o seu sentido. O fim dos tempos é também o fim para o qual eles foram criados: é o Juízo universal e o advento do Reino de Deus em sua plenitude. E assim a história, que vai da Criação à queda, da Aliança ao tempo de espera do Messias, da vinda de Cristo ao Juízo Final, adquire um sentido, tanto no seu conjunto como em suas diversas fases” (10.ed. São Paulo: Paulus, 2007, p. 393).
[8] CAHILL, Thomas. A dádiva dos judeus. Como uma tribo do deserto moldou nosso modo de pensar. 1.ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999, p. 18.
[9] Ibid., p. 144.
[10] CULMANN, Oscar. Cristo e o tempo. Tempo e História no Cristianismo Primitivo. 2.ed. São Paulo: Custom, 2003, p. 62.
[11] Ibid., p. 77.
[12] No capítulo 12, esta questão será retomada, pois a Aliança Davídica, e consequentemente o seu reinado e sucessão, constituí-se em importante kairoi dentro de toda a economia divina e, especificamente, da história da salvação.
[13] Ibid., p. 77,78.
[14] BROW, Colin; COENEN, Lothar. Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. 2.ed. São Paulo: Vida Nova, 2000, p. 2.462.



CARVALHO, César Moisés, et al. Davi. As vitórias e as derrotas de um homem de Deus. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, pp.68-74.

sábado, 10 de outubro de 2009

Um Chamado à Angústia - David Wilkerson

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Esta mensagem provocará um impacto em você (se isso não acontecer, está havendo algo muito errado!).

Ela destoa de tudo que se ouve atualmente... prepare-se.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

REFORMA PROTESTANTE, A REINVENÇÃO DO CATOLICISMO CARIOCA E A MIDIATIZAÇÃO DO PSEUDOPENTECOSTALISMO


Na última segunda-feira, durante a aula de Comunicação Cristã, propus aos alunos a realização de uma pesquisa sobre a utilização da mídia pelos cristãos. Como não poderia deixar de ser, expliquei que era necessário analisar a programação de maneira crítica e não de acordo com o "gosto" de cada um, pois assim haveria muita opinião subjetiva. Orientei-os então a que fizessem uma "análise do discurso", tendo em mente algumas questões básicas (elas foram muitas, aqui estou apenas dando uma noção do que se trata):




  • Mensagem - Relevância e pertinência do assunto;


  • Meio - É o mais apropriado para o estilo do programa?;


  • Emissor - A serviço de "quem" ou de "quê" está atuando, qual é o seu objetivo?


  • Receptor - Pelo estilo do programa, qual é o perfil do seu espectador?


  • Referente - Qual deve ser o nível de envolvimento do espectador com a fé cristã para que o programa faça sentido?

Coincidentemente, após chegar da aula, ao navegar pela web naquela mesma noite, deparei-me com a notícia de que "igrejas neopentecostais nascem com a midatização". Como estou trabalhando com o livreto História das teorias de comunicação, percebi que a notícia enquadrava-se exatamente com o que tinha, momentos antes, acabado de ler e discutir com os alunos:


Os meios de difusão surgiram como instrumentos indispensáveis para a "gestão governamental 'das opiniões'", tanto de populações aliadas como de inimigas, e, de maneira geral, partindo das técnicas de comunicação, do telégrafo e do telefone para o cinema, passando pela radiocomunicação, deram um salto considerável. Para Lasswell, a propaganda rima, daí por diante, com democracia. A propaganda constitui o único meio de suscitar a adesão das massas; além disso, é mais econômica que a violência, a corrupção e outras técnicas de governo desse gênero. Mero instrumento, não é nem mais moral nem mais imoral que a "manivela da bomba d'água". Pode ser utilizada tanto para bons como para maus fins. Essa visão instrumental consagra uma representação da onipotência da mídia, considerada ferramenta de "circulação eficaz dos símbolos".1


Após refletir sobre o trecho acima, não fiquei nem um pouco triste pela constatação do jornalista "Micael Vier Behs no encontro do Fórum Luterano de Comunicação (FLC), evento que reuniu no sábado, 26, nas dependências do Colégio Concórdia, em São Leopoldo, profissionais e agentes que professam ou estão vinculados às assessorias de imprensa das duas igrejas dessa família confessional que atuam no Brasil". Segundo o jornalista, as "Igrejas históricas mostram dificuldade em atualizar seus fundamentos teológicos e pastorais às novas práticas midiáticas, ao contrário das igrejas neopentecostais, que surgiram durante o fenômeno da midiatização, com mais competência, portanto, para lidar com as complexas relações entre mídia e religião".


Não fiquei triste porque acredito que a ineficácia midiática das igrejas nascidas sob a Reforma, deve-se pelo fato de elas ainda não terem negociado seus valores e fundamentos. O que, pelo que se percebe, é preciso que seja feito para ter êxito no grande desafio de alcançar o coração dos pós-modernos, ou seja, relativizar valores e doutrinas e oferecer um evangelho pragmático é o mínimo que tais igrejas têm feito para "cair na graça do povo" (não a exemplo da Igreja Primitiva de Atos 2.47, mas da forma condenada por Paulo em 2 Timóteo 4.4).


Por outro lado, não se pode deixar de reconhecer um outro dado (este apresentado pelo professor de Comunicação, Astomiro Morais, quando afirmou que "Lutero também fez uso de símbolos com grande propriedade, o que hoje representaria uma força semiótica, como o foi a queima da bula papal que o excomungava em fogueira pública. Estudiosos da comunicação descobriram que nas pessoas comuns fatos, mensagens, acontecimentos são gravados de forma mais rápida pelos olhos do que pelos ouvidos". Assim, de acordo com o docente, "Fato é que Lutero recorreu à tecnologia disponível no momento, o invento de Guttemberg, para fazer correr o mundo as traduções do Antigo e do Novo Testamentos, livros e catecismos".


Minha conclusão é que devemos aprender a se comunicar de maneira inteligente, sem entrar numa "guerra santa" por "almas", pois esse não é o ponto. Relativizar a forma de levar a efeito o trabalho kerigmático, pode levar muitos ao extremo e até ao ridículo. Isso já aconteceu com as denominações pseudopentecostais (que alguns ainda insistem chamar de "neopentecostais"), e agora atingiu também o catolicismo romano (ao menos aqui no Rio). A Veja Rio desta semana, trouxe como matéria de capa a seguinte notícia: "Guerra Santa - Na luta por fiéis, igrejas católicas promovem festas, sessões de exorcismo e até benção de animais". A Igreja Católica está se flexibilizando para conter o imenso contingente que migra todos os dias, para as igrejas que prometem uma vida melhor não para o além-túmulo, mas "aqui e agora". Segundo a matéria de Veja, no último domingo (4), a superlotação estava garantida na igreja de Nossa Senhora da Paz, pois "Durante o dia, haver[ia] a bênção de animais e, à noite, acontece[ria], como de hábito, a concorridíssima missa de padre Jorjão. Na Igreja da Ressurreição, no Arpoador, o pároco José Roberto Devellard não se limita a benzê-los apenas na data de seu santo protetor. Cachorros, gatos, papagaios e passarinhos são bem-vindos o ano inteiro. Tem até gente que vai à missa acompanhada do bichinho de estimação. 'Não há regra canônica que proíba animais, desde que sejam mansos, comportem-se bem e não incomodem os devotos', diz Devellard. Definitivamente, existe algo de novo nas igrejas da cidade".2


A única coisa que espero, é que as denominações históricas e pentecostais clássicas, não entrem na "guerra santa" por fiéis, pois isso as descaracterizarão, fazendo com que a Reforma perca todo o sentido, e as igrejas, a razão de ser. Graças a Deus os alunos do sexto período da Faecad estarão promovendo no próximo dia 28, o Fórum Teológico, com o tema: "A Reforma ainda fala?" Espero que, no âmbito da academia, haja um despertamento para o resgate dos nossos valores fundamentais, sob pena de o sal deixar de salgar e a luz, iluminar.



NOTAS


1 MATTELART, Armand & Michèle. História das teorias de comunicação. 12.ed. São Paulo: Loyola, 2009, p.37.

2 CERQUEIRA, Sofia & MEDINA, Alessandra. Matéria: "A Ressurreição da Fé". Veja Rio. p.22.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

TRANSTORNO DE DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE


Problemas que Afetam o Sistema de Gerenciamento Cerebral e Prejudicam o Ensino Bíblico




INTRODUÇÃO


Deus nos criou plenos e com o potencial necessário para viver (Gn 1.26-31). Infelizmente, a queda — o fatídico acontecimento do Éden — trouxe as deformidades que assolam o universo (Gn 3.17,18; Rm 5.12). Desse episódio histórico até hoje, em todo o drama humano, somente o Senhor Jesus Cristo, o homem perfeito, dispôs de todo esse potencial do estado do homem em sua pré-queda. O evangelista Lucas, que era médico, destaca que o Mestre se desenvolveu harmoniosa e globalmente: “E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens” (2.52).


A rebelião humana trouxe, em sua esfera maior e grave, o rompimento na relação com Deus (Rm 5.12-19). Entretanto, suas conseqüências temporais e imediatas — catástrofes ou desastres naturais, enfermidades, miséria, políticas injustas e muitos outros males — acabam sendo muito mais sentidas e não deixam de ser um problema. Felizmente, em virtude de sua infinita bondade, o Senhor, através da graça comum — favores que, na economia divina, são dispensados a todas as pessoas, indistintamente, para a preservação da vida —, proveu-nos de capacidade para intervir em algumas áreas. O próprio Jesus falou que não “necessitam de médico os sãos, mas sim, os doentes” (Mt 9.12), deixando claro que a medicina é um empreendimento necessário.


Considerando que na queda nosso intelecto, emoções, sentimentos, enfim, todo o nosso ser foi comprometido (Jr 17.9 cf. Gn 3.1-24) e que essa “imperfeição inerente afeta o conhecimento tanto em sua aquisição como em sua retenção, e particularmente com respeito ao conhecimento de Deus (1Co 2.14-16)”[i], que diremos acerca de pessoas que, além da dificuldade “comum”, relacionada ao fator espiritual, também possuem distúrbios que, neuro e biologicamente, as impossibilitam e/ou impedem de aprender?


I – TDAH – Uma síndrome que desfoca a mente de crianças e adultos

Sabe-se que a Educação Cristã é um trabalho conjunto realizado entre educadores cristãos e o Espírito Santo, tendo cada um o seu papel, não havendo, portanto, subtração (Mc 16.15-16; Ef 4.11-16). Partindo desse princípio basilar, conhecer o educando é parte da tarefa do educador. Conhecendo-o e cientificando-se das perturbações que prejudicam a aprendizagem, a fim de cumprir seu ministério de maneira excelente, é seu dever inteirar-se dos problemas relacionados ao universo educacional que, inclusive, vem sendo objeto de muitos estudos.


Ouve-se muito falar sobre Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), contudo, em virtude das muitas e divergentes opiniões acerca do assunto, é bem possível que o educador cristão menos enfronhado acerca do fenômeno educativo fique com a opinião da mídia. Por haver várias controvérsias acerca das reais motivações por parte das reportagens televisivas, o mais recomendável é buscar informações seguras, neste caso em literatura especializada e em cursos e/ou seminários ministrados por profissionais habilitados na área.



Os primeiros estudos desse problema datam do início do século passado “quando um médico inglês, George Still, descreveu um conjunto de alterações de comportamento em crianças, as quais, segundo ele, não podiam ser explicadas por falhas ambientais, mas se deviam a algum processo biológico desconhecido até então”[ii]. Entre 1916 e 1927, por conta de um novo “surto” de crianças que foram acometidas pela encefalite epidêmica de Von Economo, o problema despertou novamente o interesse dos pesquisadores. Eles observaram que os adultos que sofreram com essa encefalite, haviam desenvolvido como seqüela um “quadro parkinsoniano, ao passo que as crianças passavam a mostrar um quadro de hiperatividade e alterações do comportamento”[iii].



A influência dessas primeiras observações e a falta das eficientes ferramentas de ressonância magnética levou os estudiosos a pensar - por muitos anos - que o TDAH (claro, que com outro nome para o distúrbio[iv]) era um problema comportamental. Logo, só as crianças e os adolescentes é que apresentavam esse quadro e, conseqüentemente, deveriam receber tratamento educativo. Apesar de haver essa opinião entre alguns círculos acadêmicos, atualmente o diagnóstico do TDAH como um problema bioquímico e neurobiológico - por conseguinte cognitivo - é a visão prevalecente entre a maior parte dos estudiosos.



Thomas E. Brown, professor assistente e clínico de psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade de Yale, afirma em seu livro Transtorno de Déficit de Atenção, que o TDAH é uma síndrome, ou seja, “um grupo de sintomas que têm a tendência de aparecer juntos”[v]. Entretanto, “não é doença; é um transtorno que está relacionado bem de perto com as experiências diárias”[vi], pois, na verdade, a pessoa portadora da síndrome pode desempenhar muito bem inúmeras atividades. O problema parece estar relacionado à desfocalização da mente no momento de desempenhar aquelas tarefas que, a despeito de serem importantes, não lhes interessam. Apesar de os problemas com a síndrome serem “diferentes em idades diferentes”[vii], com o avanço das pesquisas, hoje sabemos que este não é um fenômeno essencialmente infanto-juvenil, mas que uma parcela considerável de pessoas adultas apresenta semelhante postura. Na verdade, as estatísticas apontam um dado preocupante; cerca de 7 a 10 por cento da população mundial sofre com essa síndrome.



Por ser um assunto multidimensonal e complexo é bom saber algumas questões cruciais sobre essa síndrome, pois o problema tende a se agravar e até desenvolver co-morbidades[viii] - a agregação de outros transtornos -, ocasionadas por acusações e cobranças da parte dos pais e professores, visto que mesmo com todas as descobertas sobre o distúrbio, muito preconceito e mito ainda persistem (por exemplo, afirmando ser este problema falta de “força de vontade”) fazendo com que o transtorno se torne um verdadeiro suplício para o portador, principalmente criança ou adolescente.



II – Descrevendo o problema



É ponto pacífico entre os cientistas da educação o fato de que o desempenho das funções mentais superiores, dependem do correto desenvolvimento e funcionamento do cérebro. No campo da psiquiatria, esse mesmo processo é conhecido como “gerenciamento cerebral”, tendo as funções cognitivas chamadas por neuropsicólogos de “funções executivas”. Doutor Brown apresenta seis blocos com as principais funções e resume o que chamamos de TDA ou TDAH:



1. organização, priorização e início de uma ação;
2. foco, sustentação e mudança da atenção;
3. regulação do sentido de alerta, esforço sustentado e determinação da velocidade do processamento;
4. administração da frustração e modulação das emoções;
5. utilização da memória de trabalho e acesso à habilidade de recordar informações; e
6. monitoramento e auto-regulação das ações.

Essas funções cognitivas interagem e se juntam para formar o sistema de gerenciamento da mente. As dificuldades crônicas nessas funções constituem aquilo que chamamos de “síndrome de TDA”.[ix]



O desafio para o portador do TDAH é justamente a auto-administração ou o autogerenciamento dessas funções, ou seja, sua ativação e administração no tempo certo e de maneira correta. Mesmo com esse entendimento das funções executivas, conhecer o processo elementar do funcionamento do cérebro ou suas interconexões é o mínimo que se requer para poder vislumbrar um pouco melhor as implicações do TDAH. De maneira bastante sucinta e panorâmica, Thomas Brown diz que



cada indivíduo pode somente usar aquilo que está sendo disponibilizado pelas suas redes neurais. Se as redes neurais para as funções executivas estão comprometidas, como é o caso dos portadores de TDA, então aquele indivíduo pode estar proporcionalmente debilitado no gerenciamento de uma enorme gama de funções cognitivas, independentemente do quanto possa estar desejando o contrário.
Existe atualmente considerável evidência de que as pessoas apropriadamente diagnosticadas com TDA sofrem de dificuldades significantes nas funções executivas do cérebro. Essas funções não estão todas localizadas em uma única área do cérebro; estão descentralizadas, com muitas delas sendo apoiadas por redes complexas dentro do córtex pré-frontal. Alguns componentes essenciais das funções executivas são apoiados pelas amígdalas e por outras estruturas subcorticais, enquanto outras funções executivas dependem da formação reticular e de porções do cerebelo, localizadas na região posterior do cérebro.
As redes neuronais complexas unem as várias estruturas no cérebro que mantêm as funções executivas. As rápidas mensagens de input e output viajam por essas redes através de impulsos elétricos de baixa voltagem que podem atravessar todo o sistema em um tempo menor que um milésimo de segundo. O movimento eficiente desses impulsos elétricos através da rede depende da rápida liberação e recaptação de neurotransmissores químicos, que transportam as mensagens através da sinapse, ou das conexões através dos neurônios, em um processo parecido com o salto da faísca de uma vela de um motor de automóvel.Para que esse trabalho seja feito, cada um dos 100 bilhões de neurônios no cérebro depende de uns 50 ou mais neurotransmissores químicos produzidos no cérebro. Sem a liberação e captação eficientes do necessário neurotransmissor químico, aquela porção da rede neural não consegue transportar eficientemente suas mensagens. Existe atualmente considerável evidência de que as funções executivas do cérebro debilitado no TDA dependem primariamente, não exclusivamente, de dois transmissores específicos: dopamina e norepinefrina.
[x]


Cientes de que o TDAH “é um problema essencialmente químico, mais especificamente, uma dificuldade no sistema químico que apóia a comunicação rápida e eficiente no sistema de gerenciamento do cérebro”, prossegue Brown em sua explicação, dizendo que assim “como o diabetes é uma doença que reflete dificuldades no processamento de insulina no corpo, a síndrome do TDA é um transtorno que reflete as dificuldades no processamento do cérebro da dopamina e da norepinefrina”[xi].

A dopamina produz a “química da motivação” e tem importância fundamental dentro das redes neurais, pois os seus duplos circuitos “desempenham um papel crítico na mobilização e sustentação do esforço para fazer com que o indivíduo consiga aquilo que quer ou precisa”, em outras palavras, se a “dopamina não é liberada nessas áreas críticas, o cérebro pode não experimentar motivação para trabalhar, mesmo por recompensas de prazer”[xii]! Não é incomum encontrarmos pessoas adultas que protelam o quanto podem a realização de determinada tarefa, tendo então que cumprir com seus deveres, às pressas, na última hora. Isso implica, na maioria dos casos, em não apresentar resultados excelentes ou otimizados.


A outra química essencial ao funcionamento e ativação perfeitas do cérebro depende da norepinefrina, pois o problema de desatenção e sonolência está relacionado ao não-funcionamento ou a distribuição reduzida deste “neurotransmissor químico primário no sistema reticular e no locus ceruleus[xiii]. O que acontece é basicamente o seguinte: quando o “locus ceruleus entra em funcionamento, distribui norepinefrina através da sua ampla rede de conexões, alertando e aumentando a excitação em sua difusa rede neural”; isso significa que a “operação eficiente das funções executivas ‘ativando para tarefas’ e ‘regulando o estado de alerta’ depende do funcionamento do sistema reticular e do locus ceruleus, entre outros”[xiv].


É digno de nota destacar que o “desenvolvimento dos circuitos do cérebro que apóiam as funções executivas é fortemente influenciado por fatores genéticos, mas os fatores ambientais desempenham também um papel importante”[xv]. Evidentemente que com o passar do tempo, em virtude da própria degeneração biológica, estilo de vida e o estado geral da saúde, haja perda “natural” da qualidade química entre as conexões. Isso não significa que a pessoa tenha “adquirido” ou “desenvolvido” o TDAH.


III – Diagnosticando o problema



A curiosidade — ou a tendência amadora de achar que entende de tudo — é extremamente negativa em todas as áreas, porém, quando se trata de saúde, as “experiências” frustradas quase sempre resultam em grandes danos. Em se tratando de problemas neurobiológicos — que se manifestam majoritariamente através do comportamento —, é comum querer “diagnosticar” ou “avaliar” as pessoas (filhos, cônjuges, conhecidos) ou até mesmo se auto-avaliar.


Quando se fala de alguns sintomas da síndrome do TDAH, é comum ver as pessoas dizerem: “Eu tenho esse problema, pois ajo exatamente assim”. Porém, a síndrome do TDAH difere da desatenção normal, em aspectos, muitas vezes, imperceptíveis a nós. Outra questão é o fato de achar que todo portador dessa síndrome é mal comportado, inquieto e agitado. Muitos casos, e nesses sim, a síndrome não possui o “agá” no final, pois é caracterizado pela reclusão e introspecção da pessoa, sendo então o mais correto dizer Transtorno de Déficit de Atenção — o TDA.



Como não há um único exame de sangue ou ressonância magnética que possa confirmar ou descartar um diagnóstico de TDAH, em todos esses casos é imprescindível que o veredicto parta de um médico especializado que, após uma longa conversa com a pessoa, saiba distinguir o TDAH de outros transtornos. Nessa entrevista, que dura em torno de duas horas, o profissional questiona sobre a “história e a natureza das situações atuais da vida, bem como as experiências anteriores de vida do paciente, notando a presença ou ausência de padrões de dificuldades na escola, trabalho, vida familiar e relacionamentos sociais”[xvi].



IV – A importância dos educadores cristãos



Estudiosos afirmam que é de grande importância o trabalho de observação realizado pelo professor. Principalmente se a criança só possui esse professor, pois ele pode “descrever as respostas da criança a tipos diferentes de tarefas, e pode comparar o desempenho de uma determinada criança com um grupo de outras crianças”[xvii].

Mesmo que a criança só tenha contato com o professor de ED no final de semana, é possível observar o seu comportamento e, caso seja necessário, orientar e/ou comunicar os pais.


Um outro desafio para o professor de ED, é o chamado mistério da desatenção. Ou seja, como os portadores do TDAH, podem prestar a atenção em algo que lhes interessam, mas não conseguem manter o foco em muitas outras áreas que são, mesmo que não reconheçam, importantes?


O professor deverá buscar entender o seu aluno, seus anseios, problemas e então planejar seu trabalho educativo. E mais, o ensino bíblico terá que ser envolvente para que seja objeto de interesse do educando portador do TDAH.



V – O que os pais podem fazer


Primeiramente os pais devem pensar em construir um ambiente de apoio ou uma estrutura de sustentação. Arthur Robin (1998) apud Brown, aponta algumas orientações básicas para facilitar o relacionamento dos pais de adolescentes com TDAH:



· facilite a busca apropriada por independência;
· mantenha supervisão e estrutura adequadas;
· estabeleça regras básicas para o comportamento na sua casa e reforce-as consistentemente;
· negocie com seu adolescente todos os problemas que não estão relacionados às regras básicas;
· use as conseqüências de maneira inteligente para influenciar o comportamento do seu adolescente;
· mantenha boa comunicação;
· considere sempre a perspectiva da incapacidade e pratique o perdão;
· concentre-se no lado positivo das coisas. (p.307)
[xviii]


É sabido que se os pais proporcionam um ambiente de fixação interpessoal desde a infância, a “sintonia”, ou seja, essa interação emocional existente no lar auxilia, e muito, no que Siegel apud Brown, chama de “desenvolvimento físico do cérebro”[xix]. No entanto, se como mostram as pesquisas, a maioria dos portadores do TDAH, são filhos de pessoas que também padecem com essa síndrome, então na realidade, toda esta família necessita de auxílio.


CONCLUSÃO

Há ainda um longo caminho a ser trilhado no conhecimento da síndrome do TDAH. Existem algumas restrições e cuidados com o tratamento medicamentoso, porém, se o problema é realmente químico, e não psíquico ou comportamental, então nos parece ser o caminho mais certo para a melhoria da qualidade de vida de muitas pessoas. Isso, porém, não descarta o fato indiscutível de que um acompanhamento psicológico e pedagógico deva ser feito. Além do mais, é sempre bom saber que em diferentes organismos os medicamentos têm diferentes reações, logo, eles podem não surtir efeito semelhante e ter a mesma eficácia em todas as pessoas.


Entretanto, como essa síndrome é, por enquanto, considerada incorrigível — pois só pode ser controlada ou amenizada — existe uma outra possibilidade. Nós que sabemos que Deus pode curar devemos pedir a Ele que realize um milagre, pois com sua infinita misericórdia e bondade, nos atende e abençoa.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

[i] EDWARDS, David L. Uma Avaliação das Teorias Contemporâneas de Aprendizagem in GANGEL, Kenneth O. & HENDRICKS, Howard G. Manual de Ensino para o Educador Cristão. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p.111.

[ii] CABRAL, Sérgio Bourbon. www.hiperatividade.com.br
[iii] Ibid.

[iv] Lesão cerebral mínima, disfunção cerebral mínima, síndrome da criança hiperativa, distúrbio primário da atenção, transtorno hipercinético e só finalmente (1970) distúrbio do déficit de atenção com ou sem hiperatividade.

[v] BROWN, Thomas E. Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. 1.ed. Porto Alegre: Artmed, 2007, p.15.
[vi] Ibid, p.110.
[vii] Ibid, p.12.
[viii] Obviamente que “co-morbidade” é um termo que descreve outros transtornos de origem congênita e hereditária, no entanto, o que se coloca aqui, é o fato de algumas perturbações psicossomáticas terem origem na ação de estigmatizar e rotular a pessoa portadora de TDAH.

[ix] BROWN, Thomas E. Op cit. p.12.

[x] Ibid, pp.27-8.

[xi] Ibid, p.72.
[xii] Ibid, pp.61-2.

[xiii] Ibid, p.63.
[xiv] Ibidem.


[xv] Ibid, p.66.

[xvi] Ibid, p.127.


[xvii] Ibid, p.128.


[xviii] Ibid, p.184.

[xix] Ibid, p.66.

Publicado originalmente em CARVALHO, César Moisés. Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Revista Ensinador Cristão. ano 10; nº38: CPAD: abril/mai/junho de 2009, pp.4-7.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O MAIOR PERIGO DOS ÚLTIMOS TEMPOS

O material abaixo trata-se apenas de algumas notas utilizadas em minha ministração na manhã de hoje no culto matutino realizado semanalmente aqui na CPAD. Na oportunidade estudamos o último material escrito pelo apóstolo Paulo. Trata-se do capítulo 4 da Segunda Epístola Pastoral do doutor dos gentios a Timóteo. Aqui, em minha modesta opinião, encontra-se uma advertência que evidencia uma preocupação circunstancial, mas também profética e oportuníssima aos dias atuais: O maior perigo dos últimos tempos é, sem dúvida alguma, que os guardiães da Palavra (ministério e Igreja) se descuidem de sua tarefa e, pior, passem a propositalmente a descaracterizá-la! Não espere uma exegese do capítulo ou algo parecido, pois a própria parafraseação das notas não obedeceu ao que consta do original. É somente um vislumbre de um estudo de 60 minutos. Para quem estava presente faz todo o sentido, mas para você que apenas lerá, com certeza parecerá muito mais superficial do que realmente foi...


Série de Estudos sobre as Epístolas
(CPAD – Casa Publicadora das Assembléias de Deus)
Quarta, 23 de setembro de 2009.

O Maior Perigo dos Últimos Tempos



Texto Bíblico: 2 Timóteo 4.1-22Os versículos de 1 a 5 oferecem uma ideia do que foi discutido e representa um fechamento que “amarra” todo o desenvolvimento anterior acerca do propósito do ministério. É sabido que o “objetivo das cartas pastorais é justamente indicar de modo unitário os critérios e as normas para a escolha dos ‘presbíteros’, além de propor uma síntese autorizada da sã doutrina e da práxis cristã consequente. Por isso, aquilo que se diz das funções de Timóteo e de Tito — delegados itinerantes de Paulo — pode ser estendido analogamente aos presbíteros-bispos que tomarão o lugar deles em cada comunidade local”.[1] Dessa forma, ao estudar este capítulo, é preciso pensar sobre o tipo de liderança exercida na Igreja do primeiro século, bem como a questão do exercício e das “fontes” de autoridade que presidem a “comunidade de fé” (expressão preferida de Lutero), nos dias atuais, além de definir o seu modus vivendi e operandi. Primeiramente é preciso refletir acerca das categorias de “fontes de autoridade”, as quais são duas: externas e internas. As externas são representadas pela (1) Autoridade Canônica (Neste caso é preciso ter segurança de que a Bíblia está sendo corretamente interpretada); (2) Autoridade Teológica (Como posso ter certeza que a minha perspectiva teológica é a mais correta e não suplanta a Bíblia?); (3) Autoridade Eclesiástica (A Igreja é o Corpo de Cristo e a liderança é parte deste organismo, tendo o dever de servir o povo de Deus a fim de edificá-lo. Será que isso está acontecendo?). As “fontes internas” da autoridade religiosa são: (4) A Experiência como autoridade (O quanto há de objetividade ou subjetividade nas experiências pessoais?); e (5) A Razão humana como autoridade (Neste caso, não pode ser esquecido o fato de que a razão não é totalmente confiável, pois todo o nosso ser foi comprometido na Queda).[2]

Introdução
De todos os assuntos discutidos pelo apóstolo Paulo, sem dúvida alguma os que se relacionavam ao cuidado com o ensino correto das Escrituras e às distorções premeditadas da doutrina, eram os que mais lhe exigiam e ensejavam a produção epistolar. Assim, ao se estudar as suas cartas e (especialmente as pastorais) perceber que tal tema é assunto nelas recorrente, é preciso entender que não se trata de redundância, pleonasmo, ser repetitivo ou mesmo falta de algo para dissertar; antes, sua insistência deve sugerir e oferecer a seriedade e a dimensão do que tal fato representa ou, ao menos, deveria representar para a Igreja.


Analisando o problema

Conceitos Principais do capítulo (Há três principais divisões neste capítulo – vv.1-5; vv.6-8 e vv.9-22)


· O apelo paulino e sua recorrência à divindade; o querigma (“pregue”) e o discipulado (“redarguas, repreendas e exortes”); a não-aceitação dos ensinamentos escriturísticos e a existência dos “ensinadores da conveniência” ou sofistas, os quais ensinam o que o povo gosta de ouvir; a obrigatoriedade do cumprimento do “propósito natural” do ministério de Timóteo (vv.1-5); (o que “pesa” na exortação paulina inicial é a verdade insofismável de que ministério é “servir” e “serviço”, nunca o contrário); (é possível inferir, sem qualquer perigo de se forçar o texto, que o ministério de “evangelista” significa sofrer e não esperar aplausos ou elogios; (na realidade, o que Paulo quer deixar claro para o seu discípulo Timóteo, é que, à semelhança dos profetas verdadeiros do AT, o obreiro fiel sofrerá rejeições e sofrerá constantes “déficits” em sua audiência que não mais terá disposição para ouvir a verdade, antes seguirão quem estiver disposto a pregar aquilo que for “politicamente correto”. O temor paulino é que Timóteo venha — diante das freqüentes rejeições — retroceder e ceda às pressões tornando-se igual aos falsos mestres. Assim, o “a tempo e fora de tempo”, ou seja, o período favorável ou desfavorável, não é uma referência exclusiva à perseguição dos ímpios, mas à não-aceitação da verdade escriturística).

· O exemplo testemunhal que Timóteo precisava para inspirar-se a prosseguir em seu ministério (vv.6-8); (Vivemos em um período de escassez de referenciais. Entretanto, tal texto, denota que a morte do apóstolo é o “sinal extremo de sua autodoação-sacrifício e, ao mesmo tempo, a chegada à meta definitiva”).

· Considerações finais, advertências e o reconhecimento de que, apesar de haver muitas pessoas em torno de cada um de nós, é possível que fiquemos desamparados, entretanto, devemos contar com o Senhor (vv.9-22); (Apesar de Paulo não ter recebido auxílio algum de seus irmãos, ele reconhece que o Senhor Deus foi-lhe por companheiro, livrando-o. Ele experimentou a verdade de que “você e Deus” é a maioria absoluta).


Conclusão
O maior perigo enfrentado nestes últimos tempos é justamente os ataques internos que a membresia sofre. Tais investidas são originadas por parte daqueles que deveriam zelar pelo cuidado com a Igreja, mas infelizmente, são lobos vestidos de ovelhas. Seu “carisma” não deve nos atrair, pois Jesus disse que identificamos alguém pelos seus frutos, e não pela aparência (Mt 7.15-20).

César Moisés Carvalho

[1]FABRIS, Rinaldo. As Cartas de Paulo (III). 1.ed. São Paulo: Loyola, 1992, p.284.
[2] RAILEY, James H. & AKER, Benny, C. In HORTON, Stanley. Teologia Sistemática. Uma Perspectiva Pentecostal. 4.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1997, pp.46-50.